“Vícios Elegantes e Deselegantes”*

O consumo de substancias psicoativas, ou “drogas” tem sido alvo de um extenso debate. Os discursos tendem a recair no âmbito do proibicionismo, da ilegalidade do consumo de algumas substâncias ou do incentivo ao uso de outras.  As práticas que legitimam ou não o uso de algumas “drogas”, possuem determinantes históricos e culturais, que respondendo aos interesses de determinados grupos em determinadas épocas, associaram algumas substancias à marginalidade, e outras não.

No Brasil, infelizmente, quanto mais o Estado vialibiza medidas que visam a repressão do consumo, mais é observado o aumento do tráfico de entorpecentes e as desastrosas conseqüências que esse tráfico produz: violência, mortes, desigualdades sociais, mais penitenciárias, mais consumo, mais custos aos cofres públicos.

É cada vez mais evidente um fracasso na posição ideológica que sustenta a chamada “Guerra as Drogas”, em função de que, dentre outros fatores,  nunca houve nenhuma civilização na história da humanidade que não tenha consumido algum tipo de substancia psicoativa*. Desse modo, a proibição do uso da substancia em si, não tem se mostrado o caminho mais eficaz. Nesse contexto,  a liberação irrestrita talvez também não seja a solução para se “acabar” com o consumo, justamente, por que a história da humanidade sempre foi atravessada por grupos que fazem uso de psicoativos (uso é diferente de abuso). Chama-se atenção para o fato de que enquanto substancias como a maconha, heroína, cocaína, são categorizadas como inapropriadas para o consumo, outras substancias como o tabaco (cigarro) e o álcool, mesmo diante de todas as advertências fornecidas pelo Ministério da Saúde quanto aos males que podem provocar, tem o seu consumo legalizado, sendo deixado a encargo do sujeito, a “opção” de escolher ou não pelo uso. O dia 31 de Maio foi tomado como dia de mobilização mundial para alerta aos possíveis malefícios decorrentes do uso do cigarro, bem como das prováveis conseqüências e dos impactos em termos de custos para o SUS para os tratamentos da saúde dos consumidores.

Convém refletir sobre quais interesses embasam a liberação de substancias potencialmente danosa a saúde dos indivíduos (cigarro e álcool) e proibição de outras substancias (maconha, etc) o que tem gerado graves impactos sócio-economicos em função do tráfico que reforça o consumo do “ilegal”. A violência, bem como a circulação de altos valores monetários só reforça esse círculo de um “vício deselegante”, enquanto a mídia, a indústria tabagista e do álcool, que respondem à filosofia neoliberal do capital de consumo, produz e incentiva o uso do cigarro e do álcool, como  um “vício elegante”.

 A presente discussão não objetiva condenar o proibicionismo e nem apoiar a legalização irrestrita. O objetivo é refletir sobre o fato de que uma possível estratégia seja não focar o olhar apenas para o consumo de um uma substancia em si e para as alterações dos estados de consciência que ela provoca, mas para necessidade de que se criem redes de diálogos, educação, informação e discussão acerca das variáveis que levam e mantém sujeitos consumindo certas substancias de forma abusiva, bem como das consequências que podem ser oriundas dessa prática. Uma sociedade que reflita acerca dos prejuízos que o uso abusivo de certas substancias podem ocasionar, pode ser mais beneficiada do que uma sociedade que apenas reproduz o discurso de que “é proibido”, sem a consciência de que essa atitude não tem produzido os efeitos esperados.

 

*Referencias  Bibliográficas :

-ESCOTHADO, A. História Elementar das Drogas. Lisboa: Antígona, 2004.

-Lei 11.343/06 e os repetidos danos no proibicionismo. Drogas e Cultura: EDUFBA, 2008.

Publicado por Hélida Luanna

Olá ! Sou natural de Araripina, cidade por a qual tenho muito apreço. Atualmente resido em Petrolina- PE, curso o 8º período de Psicologia na Universidade Federal do Vale do São Francisco. Contribuo nesse site com a postagem de matérias cujos conteúdos são pertinentes a minha área de atuação, com o objetivo de trazer informações sobre temas relevantes para a população.

Deixe um comentário

O que você achou disto?

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: