A Ferrovia Transnordestina vai cortar 34 municípios de Pernambuco. Os atrasos nas obras, que tinham previsão de ser concluídas em 2010 e foram adiadas para 2016, são apontados como entraves para o desenvolvimento do estado, em especial do pólo gesseiro da região do Sertão do Araripe. Porém, se a vinda da ferrovia de Araripina, no Sertão, até o Porto de Suape, no Litoral Sul, é vista com otimismo pelo secretário de Desenvolvimento Econômico, Márcio Stefanni, os empresários do setor gesseiro encaram com preocupação a chegada dos trens – mesmo que daqui a alguns anos, devido aos atrasos.

dscn1073
Produção de placas de gesso em Araripina.
(Foto: Katherine Coutinho/G1)

Atualmente os trilhos chegam até Parnamirim e os canteiros de obras estão abandonados, com a vegetação começando a tomar conta do entorno em alguns pontos. Mesmo assim, no Araripe, as obras da Transnordestina são encaradas como um sinal de alerta. A expectativa de vencer o gargalo do transporte vem sendo substituída pela desconfiança e preocupação de que os trens sirvam para levar a matéria-prima embora, prejudicando mais que ajudando as indústrias da região.

Atualmente, a região é a principal produtora de gesso do país, concentrando aproximadamente 80% das minas brasileiras. De acordo com informações do Sebrae, o pólo conta com aproximadamente 700 empresas, distribuídas pelos municípios de Araripina, Trindade, Ipubi, Ouricuri e Bodocó, gerando 12 mil empregos diretos. O Sindicato da Indústria do Gesso do Estado de Pernambuco (Sindusgesso) é uma das vozes alarmadas. “A ferrovia hoje é uma ameaça. Pode transformar isso aqui em um grande buraco. Podem vir buscar gipsita para produzir o gesso nas capitais”, avalia o diretor, Hildelberto Alencar.

A preocupação, explica, está ligada à dificuldade enfrentada atualmente no pólo, relacionada à matriz energética para transformar a gipsita extraída pelas mineradoras em gesso e, depois, em placas e outros produtos. “A gente percebe que a ferrovia chega tarde. Não é que ela não possa contribuir, mas veio com uma visão deslocada do gesso e não vai chegar com a compensação de matriz energética e matéria-prima do setor. Ela é importante, mas não como era no início, que era a solução dos nossos problemas”, aponta Alencar.

As últimas fábricas de grande porte do setor gesseiro, explica, não foram mais instaladas no Sertão do Araripe, mas sim em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. “As grandes indústrias não podem esperar a ferrovia ficar pronta. A região não consome gesso, quem consome gesso são os grandes centros. Hoje, 95% do setor [no Araripe] dependem da lenha [como matriz energética], o que não é de forma alguma sustentável”, explica Alencar, que também é empresário e não instalou suas últimas fábricas na região do Araripe.

Trabalhando há 20 anos no setor gesseiro, Assis Alencar Júnior é dono de uma calcinadora – fábrica responsável por transformar a gipsita em gesso através de queima – em Ouricuri e admite que não consegue enxergar benefícios imediatos com a ferrovia. “Eu pego a gipsita in natura, levo para minha fábrica, beneficio e transformo em gesso. A nossa dificuldade aqui é a matriz energética, não tem gás [a um preço competitivo]. Pode haver essa logística para transportar esse minério para ser beneficiado em outro lugar. Isso gera uma grande preocupação”, aponta.

dscn1098
Em Araripina, trilhos ainda não chegaram ao distrito de Nascente e canteiro de obras está parado.
(Foto: Katherine Coutinho/G1)

A Companhia Pernambucana de Gás (Copergás) explicou, por meio de nota, que leva o gás natural até a região do Araripe em cilindros especiais acondicionados em carretas apropriadas. O gasoduto atualmente vai até a cidade de Caruaru e a companhia afirma que se prepara para licitar a construção de um novo trecho, chegando até Belo Jardim e Arcoverde, ambas no Sertão. Há também um projeto para a estação de Gás Natural Liquefeito (GNL), que permitiria levar o gás natural para Araripina na forma líquida, mas não há informações sobre uma possível ampliação do gasoduto até a cidade.

O secretário de Desenvolvimento Econômico do estado, Márcio Stefanni, discorda da avaliação dos empresários. Além de escoar produtos do Nordeste, como o minério de ferro e a soja do Piauí, os grãos da Bahia e o gesso do Araripe, no Sertão pernambucano, a ferrovia pode auxiliar na questão da matriz energética ao levar de trem o gás liquefeito. “O estado tem procurado a iniciativa privada para colocar um terminal de regaseificação em Suape. O trem que pode levar a gispsita, pode levar gás. O que é caro de caminhão, se torna mais barato levado no trem. O trem pode levar essa matriz energética”, avalia o secretário.

Mas a outra desconfiança do setor está justamente na viabilidade real do transporte. O frete através de caminhões da região do Araripe até Suape custa, em média, R$ 85 por tonelada. Com a Transnordestina, os produtores vão ter que pagar o frete de pequena distância até a ferrovia, o transporte ferroviário, além do transporte seguinte para chegar aos produtores – fora o serviço de carregar e descarregar os veículos, que é chamado de tombo de redespacho. “Então, a gente tem três tombos de redespacho. Cada tombo desse você não faz por menos de R$ 20. Para ser viável, a ferrovia teria que custar R$ 5, e a gente sabe que não vai. Deve ser em torno de R$ 50”, calcula Alencar.

Para evitar que as indústrias deixem o pólo gesseiro, o secretário lembra que os empresários têm incentivo do governo, com cotas menores de ICMS. “Acho que quem resolve essas questões [de instalação de fábricas] é a dinâmica do mercado. Ele dita onde quer ficar. O estado de Pernambuco alterou as políticas fiscais. Quem está em Araripina terá uma política de ICMS menor que em outros locais [no estado]”, explica.

Fonte: G1.com

Deixe um comentário

O que você achou disto?

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: