RECUPERAÇÃO DA DIGNIDADE E DA HONESTIDADE

A matéria abaixo foi escrita e publicada na revista “O Cruzeiro”, na edição de 18/07/1964. O artigo tem um relevante conteúdo que enseja o exercício da honestidade e da dignidade. Valores que até hoje continuam ausentes em boa parte (de políticos e administradores públicos) escolhida pela sociedade para representá-la, nas diversas esferas do poder público constituído.
A autora alerta alguns políticos da obrigação de eliminarem de vez, com todos os vícios indesejáveis observados há 46 anos passados; e que, persistem até hoje.
Não existe uma oportunidade melhor para se republicar este artigo, no momento em que novos administradores públicos serão empossados para um novo mandato de quatro anos.

“REGENERAÇÃO”
(Rachel de Queiroz)

A conversa era a respeito das faladas grandes fortunas de certos políticos. E o moço (vinte e poucos anos, função técnica numa autarquia, rapaz sério), disse com convicção na defesa do ex-presidente:
– Mas ele não tinha precisão de roubar para ficar rico! Só a companhia X, sua protegida especial durante o governo, deu-lhe de presente 40% das ações!
Não sei se esse tal caso será verdadeiro, mas a enormidade da afirmação está no fato de que, ao fazê-la, o rapaz acreditava sinceramente defender o homem da pecha de desonesto. Favorecer um grupo às custas do governo, receber como compensação de favores uma percentagem qualquer de ações da companhia – para ele é ato legítimo, inatacável, honesto!
Outra frase impressionante me disse um deputado estadual, numa viagem de barca de Niterói ao Rio. Discutia-se também a rápida e misteriosa riqueza desses homens. E o parlamentar, aceso na defesa de um dos mais falados nababos, liquidou o assunto:
– Mas ele tinha mesmo que enriquecer. Homem nenhum passa pelos cargos pelos quais ele passou – deputado, governador, ministro etc., sem fazer fortuna. É uma decorrência da carreira! Essa eu nunca esqueci: UMA DECORRÊNCIA DA CARREIRA.
Uma das palavras mais pejorativas da língua brasileira atual é crente. Crente é o boboca, o ingênuo, que acredita em trabalho, em cumprimento do dever e em honestidade. E pior ainda do que crente é o Caxias, que, a exemplo do celebrado duque, pratica a disciplina, o horário, o escrúpulo profissional. E a gíria carioca ainda inventou um superlativo do Caxias, que é o chatias, ou o chato crente, que é o Caxias pior de todos…
Generalizou-se o conceito de que roubar do governo não é roubar. É um emprego de atividades como o comércio, a indústria ou uma profissão liberal.
Aquela mãe de família do Pará, católica, de velha família dessas que se dizem tradicionais, filha e neta de homens de bem, declarava candidamente a respeito de um sobrinho:
– O Luís era mesmo um rapaz sem juízo, quase um transviado. Mas agora se corrigiu e mudou de vida. Casou, abriu escritório de contrabando, e vai indo muito bem, graças a Deus!
Havia um antigo partido político português, no tempo da monarquia, que se chamava “Regenerador”. Provavelmente, de regenerador só tinha o nome, porque isso de partidos políticos nunca procuram fazer coincidir seu nome com a realidade. Salvo o caso dos abertamente facistas e comunistas, os outros usam o nome porque acham bonito, porque tem apelo para as massas, porque está na moda, ou seja, lá por que for.
Mas era de um movimento regenerador que tínhamos necessidade. A Revolução, esta nossa revolução de 31 de março, não pode se limitar a ser apenas o que foi até agora – um movimento armado que prometeu a derrubada dos corruptos do poder e a instalação de governo decente e austero. Isso é apenas a primeira etapa. Depois tem que vir a revolução realmente regeneradora. Devolver ao País aquele ambiente anterior a isso que aí estava. No qual trabalhar não seja burrice, ser honesto não signifique ser crente, sacrificar-se pela sua terra não seja profissão de chat ias.
Ensinar a esses meninos de hoje aquilo que aparentemente todo o mundo sabia nos primeiros tempos da República: que um homem, depois de ocupar altos cargos, não sai deles necessariamente rico; ao contrário, tem que sair necessàriamente pobre. Como saiu Floriano. Como morreu Deodoro. E os outros que vieram em seguida. Como saiu Café Filho, que ao ser deposto pelo golpe de 10 de novembro de 55, precisou que os amigos lhe arranjassem um modesto emprego numa firma particular, para que não se visse um ex-presidente passando privações!
Talvez a idéia boa fosse explicar aos meninos como é que se recolhe o dinheiro do governo; como se cobrar os impostos, dinheirinho suado de cada pobre, contribuição obrigatória de cada rico. Centavo a centavo vai se juntando – e dali, só dali – se forma aquele pecúlio público que só pode ter um destino: o uso em benefício do povo, de cujas mãos saiu.
Mostrar aos meninos o mecanismo da previdência social: os descontos mensais cobrados a todos, trabalhadores, patrões, na folha do fim do mês – e que só pode ser aplicado aos hospitais, ao pagamento de aposentadorias, de pensões, de montepios.
Fazer prédios suntuosos com o dinheiro dos Institutos de Previdência, custear festanças, sustentar afilhados, é o mesmo que roubar o remédio do doente pobre, o leito do hospital, o feijão do aposentado. Eles entenderão, moço entende depressa.
A mocidade não está corrompida; está apenas mal encaminhada e mal esclarecida. Se todo mundo usa como verdade a impostoria, se o senso moral se subverte, se os exemplos do bem são raros e os exemplos do mal são a regra comum, como esperar que a mocidade saiba descobrir sozinha onde é que está o certo e o direito?
Um governo que realize a democracia com perfeição, que tenha como base a justiça social, a verdade eleitoral, a austeridade dos servidores públicos; que incentive a honradez particular, o trabalho e o estudo, que dê valor à palavra do homem de bem; só um governo assim tem possibilidades de reconquistar a mocidade, convertê-la pelo exemplo, seduzi-la com as perspectivas de lideranças abertas, não aos vivos, não aos espertos, não aos acordados – mas aos crentes, aos Caxias. Porque então crente e Caxias terão deixado de ser nomes feios.

Humberto Alves Bandeira,

Publicado por Humberto Alves Bandeira

Sou filho de Araripina, tenho 62 anos de idade, sou casado tenho 03 filhos também casados, tenho u netinho chamado Mateus. Sou um apaixonado por Araripina e o Sertão do Araripe. Tenho um enorme prazer em fazer parte da equipe do araripina.com.br. o site expoente da região.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.