Pão e circo às avessas.

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Muitas de nossas heranças históricas e culturais provêm do legado que Roma deixou para o mundo como modelo de organização político-social. Quando a cidade passava por um intenso fluxo de camponeses que migraram até a capital em busca de emprego, o Imperador Comodus criou a Política de Pão e Circo. Tinha por objetivo maior dar comida e diversão à plebe romana para que desta forma esquecessem seus problemas e não conspirassem contra o Imperador criando revoltas.

Bem sucedida ou não, a política de Comodus virou referência a toda e qualquer ação dos governos que usam deste artifício para minimizar os problemas sociais, explorando a diversão e dando alimento aos que mais necessitam. Há de refletir sobre os dois lados que estão questão aparenta. Vamos trazer para a realidade brasileira o programa realizado na Antiga Roma no início do século I d.C.

Todo plano de governo deve objetivar suprir as necessidades básicas da população, entre elas educação, saúde, moradia e alimentação. O governo federal tem como carro chefe da sua gestão o Bolsa Família que é um repasse de recursos a famílias carentes mediante conceitos pré-estabelecidos para o recebimento mensal dos valores. De posse desses recursos a primeira necessidade a ser suprida é a de alimentação. Num país de extensão continental e com um elevado índice de desnutrição e desigualdade social, e no mínimo injusto e desumano afirmar que um programa social com tal objetivo seja tachado como “obra eleitoral”.

O pão no Brasil não tem o cunho como o criado em Roma, porém não deve ser a diretriz básica para um país que deseja estar inserido como Primeiro Mundo.

Com relação ao circo vou trazer o texto para a realidade local. É comum ouvirmos que o nível de aprovação de uma administração pública é medido entre outros fatores pela quantidade / qualidade de festas que a mesma realiza para sua população. Como no caso do pão, também não se pode negar que o entretenimento faz parte das necessidades de uma população, porém não compõe a família das prioridades. Há de se afirmar então que o entretenimento está abaixo da educação, saúde, moradia e alimentação e ao lado da cultura, esporte e lazer.

Toda administração pública deve manter suas prioridades governamentais e elencar ações que tragam ao seu povo bem estar social. Portanto é importante para qualquer governo investir no circo, pois proporciona alegria, descontração e acima de tudo renda. E é disso que quero tratar.

Não tenho em números o quanto o São João de Araripina movimenta em recursos financeiros, mas isto neste texto é o que menos importa. O que é perceptível para qualquer pessoa, principalmente para o comércio local, é o volume de negócios que o evento agrega. Durante o período oficial da festa isto fica mais visível, porém a movimentação comercial começa muito antes do mês de Junho. A quantidade de negócios aumenta significativamente com a chegada de pessoas que não moram em Araripina e que desejam prestigiar o evento. Isto é o Turismo ganhando força no nosso município e gerando fluxo de capital dentro da cidade. O que pode ser de mais importante para uma cidade que tem como principal fonte de renda o comércio? (Porque o gesso não é negócio de varejo). Portanto não existe melhor época para trazer capital novo, senão o São João.

Os hotéis chegam a sua capacidade máxima, os restaurantes aumentam significativamente a quantidade de clientes e de serviços prestados, os proprietários de empresas de transporte têm mais condições de exercerem seu trabalho, o pequeno comerciante vê aumentar e muito o giro de capital na sua empresa, enfim, a economia local é aquecida e traz expressivo volume de renda que permanecerá dentro do município.

Portanto devemos ter cuidado ao citar que política de pão e circo é usada para calar a boca da população mediante os problemas sociais. De certo eles existem, como por exemplo, o sucateamento do sistema público de saúde. Não é possível admitir que a cidade tenha apenas um hospital para atender toda a população de forma precária.

Toda administração pública tem seus desafios a serem superados. Portanto elencar os principais objetivos é fundamental, mas criar condições para o crescimento local com eventos não significa calar a boca do povo com festas.

Jorge Carvalho Possetti é Jornalista.

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6 comentários

  1. Elementar caro amigo + lhe pergunto de que lado vc está? Será em cima do muro? Como vc citou o circo deve ter porém existe prioridades, não seria + benefico um gasto tão grande depois de uma reforma na casa digo no municipio pq meu amigo as promessas no meu bairro não passou das promessas o esgoto tá na rua a ceu aberto ao lado tem uma grande obra para um circo de 1º mundo e ai onde fica a prioridade? no circo!?

  2. Carla,

    Um texto jornalístico não se caracteriza por opinião, tão pouco por posicionamento partidário. Ele serve para mostrar fatos. A decisão cabe a você. Interpretar e questionar, como bem fez.

    Abraços.

  3. De fato, a “política do pão e circo” é apenas uma deformação da seriedade com que se aplicam os recursos públicos, somente quando o administrador apenas realiza festas e mais festas e esquece as necessidades básicas do povo e as obras estruturais para o desenvolvimento do Município (a manutenção da creche dos menores, a merenda escolar dos alunos, o conserto do calçamento que está estourado porque se colocou cimento-sonrisal na obra, e outras coisas da espécie) . Quando se faz festas e mais festas com o dinheiro do povo, se distribui donativos e se paga bebidas e se franqueia a entrada de todos nos eventos apenas para alienar e dar um “cala-boca” aos miseráveis se pratica mesmo a “política do pão e circo”. O texto do jornalista é esclarecedor e só não entende quem não quer.

  4. Em comemoração ao dia do trabalho a todos aqueles 100 mil babacas que foram as festas…, amanhã volta o assédio moral.

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