Psicologia: o que é isso?

O termo psicologia é comumente usado no cotidiano das pessoas: “Aquele vendedor usa a sua psicologia para vender mais produtos”, “ as mulheres sempre usam sua psicologia para ouvir e entender os problemas dos seus amigos.”, “de psicólogo e louco todo mundo tem um pouco”. A questão é: será essa a psicologia usada pelos psicólogos? Certamente não! Mas, nem por isso, aquele deixa de ser um tipo de conhecimento importante denominado de Senso-Comum. Este se refere a um tipo de saber intuitivo e espontâneo que é formulado a partir da experiência pessoal e é transmitido através das gerações, sendo assim difundido através da cultura. Desse modo, a arte, a religião, a filosofia e o senso comum são produções do conhecimento humano. Acontece que  somente esse tipo de conhecimento não foi o suficiente para o desenvolvimento da humanidade, tendo sido necessária a construção de uma forma de saber mais especializado chamado de ciência, que, dentre as suas características, estão: “ter um objeto de estudo específico, ser dotada linguagem clara e objetiva, métodos e técnicas especializadas; processo cumulativo de conhecimento e a objetividade” (Bock, 2006) .

Então, voltando à resposta daquela pergunta inicial: a Psicologia é um campo de conhecimento científico que tem suas bases de formação na Filosofia e na Medicina. Ela começou a ser estudada nos moldes de uma ciência há pouco mais de 100 anos, em 1875, na Alemanha. Trata-se, portanto, de uma área de estudos muito recente, ainda em estruturação. Mas, o que a Psicologia de fato estuda? Como uma ciência que ainda se estrutura, diferentes objetos são tomados para estudo. A área possui diferente abordagens teóricas com seus respectivos focos de investigação. Por exemplo: a Análise do Comportamento tem como objeto de estudo o comportamento humano, a Psicanálise, o inconsciente, a Psicologia Cognitiva investiga processos psicológicos tais como: atenção, memória, concentração, sensação, percepção, consciência. A Psicologia Social/Comunitária trabalha com os conflitos, relações de poder e problemáticas que surgem em comunidades. Para tal, utiliza o corpo teórico das demais áreas citadas, desenvolvendo, além disso, investigações a respeito da formação de preconceitos/estereótipos, grupos, atitudes, representações Sociais, práticas discursivas, alienação, dentre outros. A Psicologia do Desenvolvimento investiga as características psicológicas próprias de cada fase do Desenvolvimento Humano: infância, adolescência, idade adulta e a velhice. Esses são alguns, dentre os mais importantes focos de análise que atualmente podem ser encontrados no que os autores chamam de “Psicologias ou de Ciências Psicológicas”, dada a diversidade de campos de estudo que se constroem na estruturação da área.

Vale esclarecer que, embora existam diferentes objetos de estudo, diferentes abordagens teóricas, existe um elo comum entre  essas investigações e que lhes confere uma identidade: o estudo da subjetividade humana. Fala-se, portanto, da maneira de sentir, pensar, agir, querer, que é própria de cada ser humano e que é construída pela interação de fatores sociais, culturais e biológicos. É o tal “jeito de ser” de cada indivíduo, que é aprendido ao longo das suas interações. Entende-se cada pessoa como singular, única e que ao mesmo tempo, possui características comuns com os demais indivíduos, uma vez que as todas as pessoas são oriundas de uma mesma espécie evolutiva (homo sapiens) e, portanto, partilham de características genéticas e fisiológicas semelhantes, assim como são produtos e produtoras das conjunturas históricas, sociais e culturais do ambiente em que vivem. Muitas vezes, é nessa relação ou interação do homem com o seu ambiente onde começam a surgir os chamados “problemas psicológicos” que, na verdade, não são coisas que estão escondidas dentro da cabeça do indivíduo (a menos que a pessoa tenha uma alteração na estrutura neurológica, ou tenha uma disfunção neuroquímica-essa área de estudos compete a Neurociência). Estes “problemas psicológicos” estão no modo como o sujeito aprendeu a se relacionar com o mundo a sua volta (família, sociedade, pares afetivos, amigos, relações de trabalho). É nessa história de aprendizagem e de relações do sujeito com o mundo que o psicólogo irá atuar. Isso ilustra que, para a psicologia, o “mundo psicológico”, não é algo fechado dentro das pessoas. O comportamento, o pensamento, as tomadas de atitudes, são frutos de uma relação do sujeito com o ambiente. Sendo assim, ao falar de história de aprendizagem, para a Psicologia não existe, por exemplo, uma criança agressiva, ou preguiçosa, ou desobediente, ou que tenha um “gene ruim”. O que existe é uma criança que, a partir da sua interação com o ambiente (pais, outros familiares, colegas, professores), APRENDEU a ser agressiva, e que, portanto, pode “desaprender”, ou seja, pode adquirir outros padrões de interação mais funcionais ou adequados.

Dentre os diversos campos de atuação do psicólogo, temos: clínica (consultório de atendimento individual), escolas (Psicologia Educacional-dificuldades de aprendizagem: dislexia, dislalia, dentre outros), hospitais (Psicologia Hospitalar), DETRAN (Psicometria – testes psicológicos, psicologia do trânsito) , CAP’s( Centros de Assistência Psicossocial, Saúde Mental- psicopatologias), empresas ( Psicologia Organizacional), Varas judiciais da infância, adoção ( Psicologia Jurídica) .

Alguns esclarecimentos importantes: 1) Como exemplificado com as diversas áreas de atuação, psicólogo não cuida apenas de “loucos” (pessoas em sofrimento psíquico); 2) A Psicologia se difere da Psiquiatria que é uma especialização dos profissionais formados em Medicina. Os médicos psiquiatras possuem uma formação voltada aos aspectos biológicos do adoecimento, buscando geralmente, trabalhar aspectos farmacológicos no tratamento do indivíduo. Ou seja, acompanhando com medicamentos os casos onde se faz necessário. Os psicólogos buscam trabalhar o modo de relação do indivíduo com o seu meio, procurando junto deste, minimizar o sofrimento ocasionado por padrões inadequados de interação com o ambiente. Alguns psiquiatras também são especializados em conduzir um processo de terapia psicológica, o que exige uma formação complementar. Sendo assim, em alguns serviços saúde pública e no tratamento de alguns casos em clínica particular, esses profissionais poderão atuar conjuntamente a fim de se obter um melhor resultado no tratamento de um determinado paciente. 3) problemas psicológicos não são “frescuras” ou “invenções”. São de fato problemas que geram um tipo de sofrimento para os indivíduos. Alguns tipos, se não cuidados com a devida responsabilidade, podem inclusive levar pessoas à morte; 4) as Ciências Psicológicas, possuem um corpo de conhecimento fundamentado para atender às demandas sociais, esse conhecimento, não deve ser confundido com o senso-comum, conforme foi sinalizado; 5) o campo de conhecimento da Psicologia é de uma ciência jovem, possui muitos problemas que estão sendo modificados e um desses problemas é a qualidade dos profissionais psicólogos. Ou seja, existe uma alta probabilidade de que as pessoas não encontrem profissionais que possam atender às suas demandas (dada a diversidade de especialização da área e a qualidade da formação desse profissional para atender à essas diferentes demandas).

Com essa explanação, espera-se que alguns pontos tenham ficado mais claros para os leitores acerca do fazer da Psicologia. E como reflexão proposta por uma das áreas desse vasto campo de conhecimento, sugere-se pensar sobre o fato de que:

“Os principais problemas enfrentados hoje pelo mundo só poderão ser resolvidos se melhorarmos nossa compreensão do comportamento humano” (Skinner, 1974, p.8).

É sobre alguns desses problemas que envolvem a análise do comportamento humano, que as matérias subseqüentes a serem postadas nesse site, pretendem discutir. Caso você tenha alguma sugestão, crítica ou dúvida, o espaço de discussão é aberto ao diálogo.

 

Hélida Luanna S. Reis.

Graduanda do VII p. de Psicologia – Universidade Federal do Vale do São Francisco.

Petrolina-PE.