CORDEL NAS ESCOLAS é destaque em Jornal de Goiana-GO

Quando ainda não havia
O rádio e a televisão
E os jornais não chegavam
Pra toda população
O folheto de Cordel
Era o jornal do Sertão

Lendo folhetos, então
O nosso povo sabia
Lenda de rei e princesa
E fato que acontecia…
Por ser cultura do povo
Inda resiste hoje em dia”

Sim, o Cordel ainda resiste, encantado como toda literatura, e de tão importante virou até nome de novela global. Os versos acima, que destacam a importância desse gênero, são do cordelista cearense Arievaldo Viana, criador do projetoAcorda Cordel na Sala de Aula.
Seu objetivo? Levar esse rico recorte da cultura brasileira às crianças e jovens por meio de palestras e apresentações em escolas. O trabalho inclui também uma caixa de folhetos, que são lidos e trabalhados nas escolas.
E até uma apostila com metodologia de trabalho para o uso do Cordel na Educação foi criada. Nela, Viana explica as origens do gênero, seu desenvolvimento no Brasil, suas regras básicas e como se constrói um folheto.
De tão atrativo, o material se transformou em livro. Com o apoio de algumas prefeituras do Ceará e da Petrobras, virou também um kit, composto por livro, caixa com 12 folhetos e um CD com dez poemas musicados.
O trabalho não ficou restrito ao Nordeste. Viana já levou o projeto às Minas Gerais, Tocantins, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Brasília. “O Cordel não é exclusividade das escolas nordestinas, até porque a arte do trovadorismo está presente no mundo inteiro”, avalia o cordelista.
Não acredita? Viana dá exemplos: o Cordel está também no Cururu de São Paulo, no Calango Mineiro, no Partido Alto, do Rio, nos Gaiteiros gaúchos e também nos peões de rodeio do Cerrado.
“O folheto de Cordel é uma coisa extremamente dinâmica, agradável, de uma leitura muito bonita”. Viana lembra que, quando criança, se esforçou para aprender as letras e juntar as sílabas justamente por conta do desejo de decifrar a mensagem dos folhetos que a avó lia para ele.
Assim também várias crianças nordestinas aprenderam a ler. É esse entusiasmo com o Cordel que hoje ele tenta passar em suas visitas às escolas. O cordelista acredita que ter o assunto em sala de aula é importante principalmente no que diz respeito à valorização da legítima cultura brasileira. Mas não pode ser algo obrigatório, alerta ele. “É bom quando há uma empatia tanto por parte do educador quanto dos próprios alunos. E essa empatia só acontece quando o professor sabe realmente o valor daquele texto e sabe explorar as suas possibilidades”.
Só assim, segundo Viana, nasce o interesse no aluno.

Artista pernambucano da cidade de Araripina, Cacá Lopes também vê a importância do Cordel na sala de aula.
Ele trabalha há 17 anos com o projeto cultural CORDEL NAS ESCOLAS, levando informações sobre o assunto para instituições de ensino públicas de São Paulo. Também cordelista, Lopes explica que o o objetivo é aproximar a produção da literatura de Cordel aos projetos de Educação e curriculares.
A iniciativa tem o poder de incentivar a leitura e resgatar uma das mais autênticas expressões culturais do povo brasileiro. “O Cordel, durante muito tempo, foi o principal veículo de comunicação e de aprendizagem da nossa gente sertaneja”, lembra.
Espaço privilegiado

Lopes explica que trabalhar os folhetos como ferramenta pedagógica não é obrigatório para as escolas, mas tem sido prática comum em instituições de ensino de todo o país.
Inclusive nas instituições de Ensino Superior, por causa da importância e do grande valor que o Cordel tem na Educação. “Escolas e universidades ressaltam o valor cultural de rica variedade temática desse recurso literário”.
Viana comenta que há várias maneiras para se trabalhar o Cordel em sala de aula. Ele propõe que, inicialmente, a melhor proposta é ler um folheto em voz alta. Primeiro o professor, depois os alunos. “A partir daí, as crianças vão adquirindo intimidade com o texto”.
Com mais conhecimento sobre o assunto, os estudantes usarão o Cordel como qualquer outro material paradidático: apresentações teatrais, ilustrações baseadas no texto, questionários, debates sobre os temas apresentados, etc.
Outra boa iniciativa é formar uma Cordelteca (biblioteca de Cordel) na escola. Nesse espaço, os alunos terão à disposição clássicos do gênero, folhetos que atravessaram gerações e também o melhor da nova produção poética do país. Para ele, tudo o que é necessário para que aluno e professor se aproximem mais do Cordel e passem a buscar os textos espontaneamente. Outra sugestão de Viana é levar os poetas à escola, para que eles realizem palestras e apresentações.
As releituras de grandes obras da literatura brasileira e universal, adaptadas para o Cordel em novo formato, também são boa opção pedagógica.
“É o caso de Corcunda de Notre-Dame em Cordel, de João Gomes de Sá, em que os famosos personagens da obra de Victor Hugo são transportados da França para uma pequena cidade do interior do Nordeste”, cita ele.
Literatura menor?

O Cordel demorou tanto a chegar à sala de aula por causa do preconceito. Por quê? “Alguns desavisados ainda relacionam Cordel com poesia matuta e essa confusão contribui para deturpar a nossa arte e para que alguns acadêmicos ainda torçam o nariz e o vejam como uma arte menor”, aponta Viana.
E complementa: “Isso não é verdade!” Inclusive para ter mais aceitação, muitos novos autores já procuram se adequar às normas gramaticais, o que não é uma exigência. “O Cordel é uma escola literária. Muitos representantes da nova geração são conscientes da importância do folheto como ferramenta auxiliar na Educação e procuram colocar as coisas em seu devido lugar”, completa.
Brasileiro importado
É brasileiro sim, pois surge hoje do cotidiano dos nordestinos, mas a origem do Cordel é europeia. Segundo o cordelista Arievaldo Viana, o estilo literário tem origem ibérica e veio na bagagem do colonizador europeu. Mas chegou ao Brasil meio pobre, sem assunto.
“O romanceiro popular nordestino é seguramente o mais rico do mundo, tanto em quantidade de obras e autores, quanto na qualidade dos textos apresentados até aqui”, conta Viana.
Contudo, a origem ibérica é questionável. Também cordelista, Cacá Lopes afirma que não há consenso sobre como o Cordel chegou ao Brasil.
De acordo com Lopes, durante muitos anos, pesquisadores buscaram o caminho mais fácil para explicar a gênese do Cordel no país.
“A maioria, até final da década de 80, atribuía ao Cordel uma herança ibérica, por achar que no Cordel brasileiro residiam elementos iguais e semelhantes ao produto português ou espanhol”.
O problema é que o Cordel português é bem diferente do brasileiro. Aquele se pautava em reproduzir obras clássicas, mas não apresentava produção escrita própria e autônoma como a do Brasil.
“Eles [os pesquisadores] teimavam em ignorar a originalidade do nosso produto e necessitavam de um cordão umbilical transatlântico para corroborar a importância do Cordel”, critica Lopes.
Foi no Nordeste brasileiro mesmo que o Cordel ganhou vida. “A sua relevância histórica vem do Nordeste, que o transformou em uma das mais ricas manifestações culturais a partir das últimas décadas do século 19”.
O que possibilitou isso, diz o cordelista, foi a chegada de quatro poetas paraibanos à Recife. Foram eles os responsáveis pela geração princesa do Cordel: Silvino de Pirauá de Lima, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athaíde e Francisco das Chagas Batista.

Quer saber mais?
Para quem deseja entrar no mundo encantado dos Cordéis há várias opções:
* Breve História da Literatura de Cordel

A dica é do cordelista Cacá Lopes. O livro foi escrito por Marco Haurélio e conta com o aval do doutor em Cordel (Ciência da Literatura), Aderaldo Luciano. A obra narra as origens do Cordel
e apresenta suas influências na cena cultural brasileira.
* Cordelivros

Essa é a dica do cordelista Arievaldo Viana. Ele indica a leitura de qualquercordelivro, mas há três específicos de sua autoria: A Raposa e o Canção, Padre Cícero, o Santo do Povo e A Ambição de Macbeth e a Maldade Feminina.
* Série Literatura de Cordel na Escola – TV Escola

O caderno Escola também tem uma dica. A TV Escola fez uma série de cinco programas sobre a Literatura de Cordel na Escola, com o objetivo de discutir as origens desse gênero literário e sua presença nas escolas de Ensino Fundamental. Dá para conferir no site http://tvescola.mec.gov.br.

LINK PARA O JORNAL: http://www.tribunadoplanalto.com.br/escola/12705-no-ritmo-das-rimas-nordestinas

José

Sou cantor e compositor profissional, além de poeta popular. Trabalho com música e cordel.Nasci em Araripina-PE, no sopé da chapada do Araripe, região encantada que deu a humanidade Patativa do Assaré e Luiz Gonzaga, referenciais sempre presentes em minha arte.

2 Comentários

  1. José Edivaldo Lopes   •  

    A matéria acima saiu na edição 1296 do Jornal Tribuna do Planalto, Goiânia-Goiás, e é assinada pela jornalista Raphaela Ferro.

    Errado: No título a palavra Goiânia saiu grafado (Goiana)

  2. Edmilson Garcia   •  

    O RETRATO DO HOMEM DO SERTAO

    NUMA CASA DE TAIPA E CHAO BATIDO
    ELE MORATRANQUILO,SOSSEGADO
    SEU TRABALHO É CUIDAR BEM,DO ROÇADO
    D,ONDE SEU ALIMENTO É EXTRAÍDO
    POR ALÍ ELE É MUITO CONHECIDO
    E CONHECE CADA PALMO DO SEU CHAO
    SUA GRANDE,OU MAIOR PREOCUPAÇAO
    É FALTAR A COMIDA NA PANELA
    LA NA ROÇA, É ASSIM QUE SE REVELA
    O RETRATO DO HOMEM DO SERTAO

    CHAPEU GRANDE DE PALHA BEM TRANÇADO
    UM FACAO PENDURADO NA CINTURA
    ALPERCATA NO PÉ,DE SOLA DURA
    UM TRINCHETE PONTUDO E AMOLADO
    UM BOI MANSO,UM JUMENTO E UM ARADO
    NA COZINHA, UM MOINHO E UM PILAO
    NO LUGAR DE USAR UM CINTURAO
    SUA CINTA, É UMA IMBIRA SEM FIVELA
    LA NA ROÇA É ASSIM QUE SE REVELA
    O RETRATO DO HOMEM DO SERTAO

    COM O ROSTO BASTANTE ENRUGADO
    COM A PELE QUEIMADA DO SOL QUENTE
    COM UM JEITO MATUTO PERMANENTE
    NO PESCOÇO UM ROSARIO ENFIADO
    PRA FAZER ORAÇAO LA NO ROÇADO
    E PEDIR à PADIM CIÇO PROTEÇAO
    PRA QUE NUNCA NA VIDA FALTE O PAO
    PRA OS FILHOS E A ESPOSA TAO SINGELA
    LA NA ROÇA É ASSIM QUE SE REVELA
    O RETRATO DO HOMEM DO SERTAO

    UMA CAMISA SUADA E ENCARDIDA
    UMA CALÇA RASGADA NO JOELHO
    COM A BARBA TIRADA SEM ESPELHO
    QUE A NAVALHA,NA PELE FEZ FERIDA
    SE LEVANTA BEM CEDO E VAI PRA LIDA
    DE SEGUNDA A SABADO É UM SÓ ROJAO
    TODA NOITE ELE USA UM LAMPIAO
    SE NAO TEM QUEROZENE ACENDE VELA
    LA NA ROÇA É ASSIM QUE SE REVELA
    O RETRATO DOHOMEM DO SERTAO

    MADRUGADA,,LEVANTA E CHAMA O FILHO
    ENSEGUIDA A ESPOSA ESTA DE PÉ
    JA PREPARA A CHALEIRA DE CAFÉ
    FAZ BEIJU TAPIOCA E PAO DE MILHO
    E ENQUANTO O SOL CHEGA COM SEU BRILHO
    TODOS COMEM NA BEIRA DO FOGAO
    SEM PORFÍA E SEM RECLAMAÇAO
    PORQUE SABEM QUE A VIDA É SEMPRE BELA
    LA NA ROÇA É ASSIM QUE SE REVELA
    O RETRATO DO HOMEM DO SERTAO

    UM DOMINGO POR MES VAI NACIDADE
    COMPRAR FUMO DE ROLO NA BODEGA
    NA IGREJA, OUVIR O QUE O PADRE PREGA
    E CUMPRIR A RELIGIOSIDADE
    LA NA RUA, NAO SE SENTE À VONTADE
    NEM PARECE PISAR FIRME NO CHAO
    A LAVOURA É A SUA PROFISSAO
    E NAO SABE VIVER DISTANTE DELA
    LA NA ROÇA É ASSIM QUE SE REVELA
    O RETRATO DO HOMEM DO SERTAO

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.